Os amigos leitores que por aqui passam de forma mais constante bem sabem que frequentemente estou envolvido em ações midiáticas em TVS, rádios, jornais, revistas e outros, geralmente, versando acerca da inclusão, acessibilidade e respeito à diversidade humana. Já aqueles que tiveram a oportunidade de assistir minhas palestras sobre protagonismo da pessoa com deficiência me ouviram falar acerca da importância de nos apropriarmos de forma ética dessa mesma mídia, no sentido de fazermos com que a informação concernente a realidade das minorias chegue de forma correta até a sociedade, já que tais meios de comunicação, geralmente propagam a exclusão, criam tendências, determinam modelos ideais e não raramente causam uma sensação de incompletude intelectual, econômica, social ou estética.
Ontem (13/12/2011), coincidentemente a 5 anos exatos da aprovação do texto final da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, recebi o convite de uma agência publicitária para ser a personagem de uma peça de uma campanha de uma montadora de veículos. Como sempre faço, antes de qualquer coisa, solicitei informações acerca do roteiro e objetivo da campanha para assim analisar se era ou não de meu interesse participar, quando a empolgada publicitária começou a discorrer sobre a inovadora sacada de marketing, a qual em primeira mão compartilho com todos vocês:
“Um homem sego, caminha por uma movimentada calçada. Pessoas passam rapidamente por ele, quase o derrubando. Na mesma sequência, o “protagonista” se depara com dejetos, quase cai em um bueiro, é colhido por um skate e se não bastasse tanta desgraça de uma só vez, também quase é atropelado por uma bicicleta.” No desfecho da peça, surge a pergunta e reflexão: “Isso tudo não parece perigoso para você? Quando você fala no celular ou manda SMS quando está ao volante, Corre o mesmo risco.”
É claro que aceitar a proposta para gravar tal comercial em muito colaboraria economicamente com as festas e minhas férias de fim e início de ano, mas, sobretudo iria de encontro com minha experiência e discurso acerca da inclusão da pessoa cega e com baixa visão; minhas convicções nunca estiveram à venda. Assim, agradeci o convite, falei que pessoalmente penso que a idéia não seja de bom tom e que desta forma prefiro me abster de gravar, não sem antes tentar passar algumas orientações acerca do cotidiano da pessoa com deficiência visual e de uma abordagem mais positiva, que certamente não serão consideradas.
É quase certo que outra pessoa cega que pense diferente e que motivada por suas necessidades e razões pessoais venha a aceitar tal trabalho – e a mim caberá respeitar. Porém, não posso deixar de expressar e de compartilhar com todos vocês minha frustração com o fato que, infelizmente, em muitas situações, pessoas com deficiência ainda são exibidas em uma vitrine e que conceitos equivocados continuem caindo como referência no senso comum, indo de encontro a tudo que fora conquistado ao longo da história da pessoa cega ou com baixa visão. De minha parte, continuo acreditando que caiba a cada um de nós, desempenhar o papel de agentes de transformações sociais e de transformação do discurso em prática.
Nas Ciências Sociais, alguns autores afirmam que a mídia é o olhar do olhar do outro, aquilo que é captado pelo olhar das câmeras. No caso em tela, penso que não seria equivocado acrescentar que também é ela, o meio que desfoca o cotidiano e a potencialidade de diversos seguimentos de pessoas.
Em tempo, reconheço a importância de qualquer campanha de conscientização, sobretudo quando se fala em trânsito, em um país no qual anualmente milhares de pessoas perdem suas vidas ou ficam com sequelas. Também reconheço que como pessoas com deficiência visual, comumente nos deparamos com algumas barreiras atitudinais e urbanas, e que quase sempre tiramos todas elas de letra; mas colocar todas essas dificuldades em um único pacote e apresentar de forma equivocada, em nada acrescenta enquanto informação real para a sociedade.
Por Beto Pereira