Cão-guia Simon faz aniversário de 8 anos
Com 13 anos de idade, em plena adolescência e perdendo o pouco de visão que tinha, passei a utilizar-me da bengala. Confesso, tentei resistir o quanto pude, pois no meu entendimento “aborrecesnte” da época, estava certo que a partir de ali, seria simplesmente o ceguinho da turma, ou seja, aquele que despertaria pena, quando não, afastaria pessoas de mim.
Diferentemente do que imaginava e mais uma vez contando com o apoio na medida certa de meus pais, que mais tarde vim a saber que me seguiam escondidos para constatar como me saía nessas novas aventuras com minha bengala, em poucas semanas notei que ao contrário de me afastar das pessoas, aquele instrumento me aproximava e mais que tudo, me oferecia algo determinante: condições de ir até elas, a possibilidade de superar barreiras e a independência imprescindível no ir e vir.
Assim, durante muitos anos, ali sempre esteve ela, a bengala: nas aventuras com as namoradinhas da adolescência, os finais de semana agitados fora de casa, no curso de rádio e TV, na saída de minha casa para morar em outro estado, o primeiro segundo e outros empregos e em tantos fatos de minha vida, muitos alegres, outros nem tanto.
Por algumas vezes, me falavam de um tal de cão-guia, e de toda a agilidade que oferecia para a pessoa cega, mas sinceramente o tema nunca chamara de fato minha atenção e honestamente falando, despertava em mim alguma resistência, pois na falta do mínimo conhecimento do assunto, imaginava coisas como do quanto seria desgastante para o animal,da falta de eficácia da utilização desse meio, e que seria um método impraticável ao meu estilo e ritmo de vida.
Certa vez quando ainda era menino, ouvi algo do tipo que ser sábio não é ter a mesma posição acerca de um tema a vida toda e sim saber esmiuçar o novo e se nele encontrar razões palpáveis, não ter medo de adotá-lo para si. Em relação ao tema cão-guia, foi justamente isso que ocorrera comigo.
Através do contato próximo com algumas pessoas que acabavam de retornar do EUA com seus companheiros de 4 patas, da visita que fiz ao centro de treinamento de cães em Brasília na época da novela América e finalmente minha participação ao vivo em um programa de TV apresentado pela Monique Evans no qual eu falaria acerca da bengala enquanto a advogada Thaís Martinez do cão-guia, fizeram com que eu dedicasse algumas semanas pesquisando acerca do tema que acabou por resultar em uma mudança de opinião e no despertar do desejo de também contar com um ser como esse para ser a luz de meus olhos e meu grande companheiro.
Assim me inscrevi em algumas escolas, e em setembro de 2006, recebi do instituto IRIS, a ótima notícia que eu era um dos quatro selecionados a compor a 1ª turma de cegos Brasileiros a fazer parte de uma parceria com a escola Americana Leader Dog e a viajar para o EUA para passar por um período de capacitação e receber o já tão esperado cão-guia.
Foi dessa forma que Simon surgiu em minha vida, e hoje é um serzinho indispensável, não apenas pelo tanto que otimiza meu ir e vir com mais segurança e autonomia, mas pelo companheirismo, dedicação e respeito que servem de lição para muitos humanos chamados de racionais.
Ao iniciar esse post falando do apoio recebido de meus pais, de minha resistência em utilizar a bengala, e depois do quanto esse instrumento fora fundamental em minha vida, estou certo que quando de fato assumimos nossa identidade, nos tornamos mais fortes para superar as barreiras e chegar onde desejamos e da forma que desejamos.
Quando me perguntam qual é o melhor meio para mobilidade se o cão-guia ou a bengala, enfatizo a importância que a bengala teve em meu processo de autonomia, que é o meio mais viável para a mobilidade de milhões de pessoas cegas que a utilizam e que me possibilitou chegar até aqui. Contudo, não posso deixar de falar do quanto o cão-guia facilitou minha vida no que concerne a acessibilidade, mobilidade e toda assertividade no ir e vir, pois hoje, nas viagens que faço por todo o Brasil e exterior falando de inclusão, acessibilidade e respeito à diversidade humana ou simplesmente curtindo um lazer, já que as namoradinhas e as baladas mudaram um pouquinho, ali está ele, firme e forte e sempre presente como um grande protagonista e indispensável no meu cotidiano.
Hoje, o cão-guia Simon completa 8 anos de idade e por tudo que representa de positivo em minha vida, aquilo o que eu tentar escrever aqui, será pouco para expressar meu carinho, respeito e minha gratidão a esse ser que no frio ou no calor, no sol ou na chuva, nas horas alegres e difíceis da vida, vem mostrando o verdadeiro sentido das palavras companheirismo e cumplicidade.
Já quase um tiozão e entrando em sua reta final no compromisso de guiar-me, Simon representa um amigo de quatro patas que veio agregar ainda mais qualidade de vida em meu dia-a-dia e um verdadeiro exemplo de dedicação, na qual a comunicação é quase telepática e a troca é espontânea e magicamente igualitária.
A você Simon, amigo de quatro patas que ao longo do caminho vem somando seus passos aos meus, minha eterna gratidão e o compromisso que você sempre estará comigo.
Em tempo, seria injusto falar do quanto esse cãozinho é importante em minha vida, sem agradecer algumas pessoas como aos amigos Thaís Martinez, José Santos, Moises Jr, Lester, José Otávio Pinto e através deles cada um de vocês amigos e leitores, que de forma direta ou indireta fazem parte disso tudo e é justamente por isso que convido a todos para comigo cantar um parabéns bem forte para essa criaturinha linda que tem cumprido de forma tão brilhante o papel de companheiro e de guia.
Parabéns Simon!
