Leitor escreve: “Encontro Dosvox, a imagem da pessoa cega a serviço dos interesses pessoais”
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“Encontro Dosvox, a imagem da pessoa cega a serviço dos interesses pessoais”
Em 1993, quando a informática ainda era utilizada apenas para fins empresariais e de grande porte, um aluno cego resolveu ingressar no curso de Processamento de Dados da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Este aluno, juntamente com um professor sensível a causa das pessoas com deficiência, criaram o sistema DOSVOX, que funciona como um micro sistema operacional rodando dentro de outro sistema operacional, Windows ou Linux.
Esta criação deu um salto na vida digital das pessoas cegas em todo o Brasil e até fora dele: Na década de noventa, a tecnologia assistiva para computadores era muito mais cara do que é hoje e a forma barata de uma pessoa cega utilizar o computador era através do Dosvox.
Com o número de usuários crescendo mais e mais, em 1997 foi realizado o primeiro “encontro Dosvox”, no instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro. Apesar de haverem palestras e apresentações de melhorias no Dosvox, nestes encontros anuais, o evento não tinha o caráter de congresso. Era mais um encontro para confraternização do que qualquer outra coisa. Amigos que teclavam (na época não havia recurso de comunicação por voz via internet) com outros amigos de diversas regiões do país, tinham a oportunidade de se conhecer pessoalmente e partilhar momentos de muita diversão e discontração.
Meu primeiro “encontro dosvox” foi no ano de 2001, ainda no IBC. Inesquecível, claro. Era minha primeira viagem sozinho. Eu ainda dava os primeiros passos com a bengala e tinha a cabeça cheia de medos e curiosidades. A força dos amigos me fez sentir íntegro naquele espaço. Havia um encanto especial em tudo: Nas palestras, nas cabeçadas nos corredores do IBC, nas brigas, que na internet eram constantes, mas pessoalmente o clima era ameno e muito divertido.
No ano de 2003, tivemos o último encontro Dosvox realizado no Rio de Janeiro. Após isso, o evento seria realizado em uma cidade diferente a cada ano. Confesso que isso tirou um pouco do encanto. O evento ficou mais regionalizado, mais fechado, o acesso das pessoas não foi mais o mesmo. Mas continuamos participando. Em 2007 em Joinville, 2008 em São Paulo, 2009 em Fortaleza e 2010 em Cascavel.
Nestes últimos eventos, o que percebi foi uma queda muito grande na qualidade do conteúdo das apresentações. O encontro Dosvox nunca teve um caráter congressista. Mas as palestras eram relevantes, sim. Muitos iam ao evento não só para encontrar os amigos, mas também para se inteirar acerca das novidades que estavam por vir no Dosvox e demais temas relacionados as pessoas com deficiência visual.
De fato, o projeto Dosvox entrou em um processo de estagnação nos últimos anos, o que diminuiu as possibilidades de apresentações relevantes nos eventos. Para preencher lacunas, a qualidade das palestras/palestrantes foi bastante reduzida, o que trouxe conteúdos que, inclusive, em nada se relacionam a informática ou a deficiência visual.
Ao meu ver, o encontro só continua sendo realizado anualmente para promover um marketing forçado do projeto e de seus gestores. Forçado porque já não há o que apresentar. Não há o que se discutir. Não há sequer o que propor, vez que as sugestões dos usuários não são consideradas no desenvolvimento de melhorias para o sistema. Quando estas melhorias são feitas (hoje em dia, algo muito raro), são apresentadas ferramentas completamente inóquas e que servem apenas para refutar o argumento de que o Dosvox não é atualizado.
Hoje, o encontro Dosvox é um palco de “pegação” entre aquelas pessoas cegas que estão mais ou menos excluídas da sociedade e que tem, no evento, a chance de encontrar pessoalmente outros cegos que possam satisfazer suas necessidades corporais. Em outras palavras, posso dizer que hoje, o Encontro Dosvox não agrega outra coisa a seus participantes que não a satisfação de suas lacívias. Relativamente aos organizadores e gestores do projeto, estes sim, alferem diversas vantagens pessoais: Passagens aéreas, hospedagens e diárias, promoção de seus nomes como os salvadores das pessoas cegas, endeusamentos e alimentação contínua de suas vaidades. E isso tudo com o dinheiro público.
Lamento imensamente que uma realização tão mágica e cheia de encantos tenha se tornado palco de interesses mesquinhos. O mais grave, é que tudo isso é feito em nome da pessoa cega. Se nossos líderes olhassem para essa realidade com um pouco menos de displicência, certamente a imagem dos cegos não seria tão manchada.
Leondeniz Candido de Freitas
