domingo, 5 de fevereiro de 2012

Leitor escreve: “Encontro Dosvox, a imagem da pessoa cega a serviço dos interesses pessoais”

Olá amigos leitores, abaixo reproduzo um texto escrito por LeonDeniz Candido de Freitas, externando algumas de suas opiniões acerca do Dosvox e “EncontroDosvox”. A mim, não cabe nesse momento opinar sobre o tema, mas sim abrir espaço para que outras pessoas que assim o queiram, possam nesse mesmo Blog, acrescentar, concordar ou discordar, desde que para tanto, seja respeitado o bom nível do diálogo.

Em tempo, quaisquer colocações efetuadas por nossos leitores, são de sua inteira resbonsabilidade.

E você, concorda? discorda?

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“Encontro Dosvox, a imagem da pessoa cega a serviço dos interesses pessoais”

Em 1993, quando a informática ainda era utilizada apenas para fins empresariais e de grande porte, um aluno cego resolveu ingressar no curso de Processamento de Dados da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Este aluno, juntamente com um professor sensível a causa das pessoas com deficiência, criaram o sistema DOSVOX, que funciona como um micro sistema operacional rodando dentro de outro sistema operacional, Windows ou Linux.

Esta criação deu um salto na vida digital das pessoas cegas em todo o Brasil e até fora dele: Na década de noventa, a tecnologia assistiva para computadores era muito mais cara do que é hoje e a forma barata de uma pessoa cega utilizar o computador era através do Dosvox.

Com o número de usuários crescendo mais e mais, em 1997 foi realizado o primeiro “encontro Dosvox”, no instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro. Apesar de haverem palestras e apresentações de melhorias no Dosvox, nestes encontros anuais, o evento não tinha o caráter de congresso. Era mais um encontro para confraternização do que qualquer outra coisa. Amigos que teclavam (na época não havia recurso de comunicação por voz via internet) com outros amigos de diversas regiões do país, tinham a oportunidade de se conhecer pessoalmente e partilhar momentos de muita diversão e discontração.

Meu primeiro “encontro dosvox” foi no ano de 2001, ainda no IBC. Inesquecível, claro. Era minha primeira viagem sozinho. Eu ainda dava os primeiros passos com a bengala e tinha a cabeça cheia de medos e curiosidades. A força dos amigos me fez sentir íntegro naquele espaço. Havia um encanto especial em tudo: Nas palestras, nas cabeçadas nos corredores do IBC, nas brigas, que na internet eram constantes, mas pessoalmente o clima era ameno e muito divertido.

No ano de 2003, tivemos o último encontro Dosvox realizado no Rio de Janeiro. Após isso, o evento seria realizado em uma cidade diferente a cada ano. Confesso que isso tirou um pouco do encanto. O evento ficou mais regionalizado, mais fechado, o acesso das pessoas não foi mais o mesmo. Mas continuamos participando. Em 2007 em Joinville, 2008 em São Paulo, 2009 em Fortaleza e 2010 em Cascavel.

Nestes últimos eventos, o que percebi foi uma queda muito grande na qualidade do conteúdo das apresentações. O encontro Dosvox nunca teve um caráter congressista. Mas as palestras eram relevantes, sim. Muitos iam ao evento não só para encontrar os amigos, mas também para se inteirar acerca das novidades que estavam por vir no Dosvox e demais temas relacionados as pessoas com deficiência visual.

De fato, o projeto Dosvox entrou em um processo de estagnação nos últimos anos, o que diminuiu as possibilidades de apresentações relevantes nos eventos. Para preencher lacunas, a qualidade das palestras/palestrantes foi bastante reduzida, o que trouxe conteúdos que, inclusive, em nada se relacionam a informática ou a deficiência visual.

Ao meu ver, o encontro só continua sendo realizado anualmente para promover um marketing forçado do projeto e de seus gestores. Forçado porque já não há o que apresentar. Não há o que se discutir. Não há sequer o que propor, vez que as sugestões dos usuários não são consideradas no desenvolvimento de melhorias para o sistema. Quando estas melhorias são feitas (hoje em dia, algo muito raro), são apresentadas ferramentas completamente inóquas e que servem apenas para refutar o argumento de que o Dosvox não é atualizado.

Hoje, o encontro Dosvox é um palco de “pegação” entre aquelas pessoas cegas que estão mais ou menos excluídas da sociedade e que tem, no evento, a chance de encontrar pessoalmente outros cegos que possam satisfazer suas necessidades corporais. Em outras palavras, posso dizer que hoje, o Encontro Dosvox não agrega outra coisa a seus participantes que não a satisfação de suas lacívias. Relativamente aos organizadores e gestores do projeto, estes sim, alferem diversas vantagens pessoais: Passagens aéreas, hospedagens e diárias, promoção de seus nomes como os salvadores das pessoas cegas, endeusamentos e alimentação contínua de suas vaidades. E isso tudo com o dinheiro público.

Lamento imensamente que uma realização tão mágica e cheia de encantos tenha se tornado palco de interesses mesquinhos. O mais grave, é que tudo isso é feito em nome da pessoa cega. Se nossos líderes olhassem para essa realidade com um pouco menos de displicência, certamente a imagem dos cegos não seria tão manchada.

Leondeniz Candido de Freitas


Deficiente visual é impedida de fazer prova do Enem

Olá amigos leitores.

Abaixo, reproduzo uma matéria que nos leva a refletir acerca de a quantas anda essa questão da inclusão, do acesso e do respeito a pessoa com deficiência visual nos estabelecimentos de ensino de nosso país, locais que deveriam ser o berço de bon exemplo para a sociedade.

Será que estou equivocado ao pensar que cabe a cada um de nós enquanto cidadão, atuante em qualquer esfera profissional ou representativa, nos indignar, gritar e cobrar por providências imediatas?

Será que não é passada a hora de apontar, doa a quem doer, algumas “ações de inclusão” apenas teóricas, aplicativos lançados e promovidos que não vão ao encontro das necessidades do cegos de nosso país, encontros de “inclusão” apenas de cunho promocional e que difundem recursos de décadas passadas como se fossem esses a salvação dos pobres ceguinhos Brasileiros?

Ou a sociedade se mobiliza ou tudo o que vem sendo conquistado de pouco ou nada será válido.

Desculpem a maneira um tanto apolítica de tratar as coisas, mas quando o sistema de educação patina no que concerne a inclusão e acesso, é um forte indício de que a situação não está tão bela assim para a pessoa com deficiência quanto algumas pessoas e segmentos querem nos fazer acreditar.

Aqui, do relativo conforto que alcancei na vida, mas a custa de muito choro, suor e por que não sangue, penso quantos outros casos similares ocorrem como esse em cidades menores e que nem chegam ao conhecimento da mídia e por consequência ao nosso e quantos jovens com deficiência visual, ficam na metade do caminho da cidadania, por terem tolhido seus direitos basilares de acesso, inclusão e respeito.

Por favor, leiam abaixo e se forem mais fortes que eu, continuem estáticos.

Deficiente visual é impedida de fazer prova do Enem no Rio Grande do Sul
Estudante queria fazer o exame em braile e não acompanhada de alguém que lesse as questões
Roberto Witter

roberto.witter@gruporbs.com.br

O desejo de ingressar no curso de psicologia da jovem Eduarda Bittencourt Nogueira, 20 anos, deverá ser adiado por mais um ano. Deficiente visual, ela foi impedida de realizar a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) devido à falta de exames em braile. As informações são do clicRBS Rio Grande.

A estudante chegou dentro do horário ao local de prova, no Instituto Estadual de Educação Juvenal Miller, em Rio Grande, no sul do Rio Grande do Sul. Nas mãos, ela portava o comprovante de inscrição, que lhe conferia o direito de receber uma prova especial.

Segundo a estudante, que estava acompanhada da irmã e do cunhado, os fiscais de prova informaram que havia testes em braile na escola.

— Eles disseram que não tinha mais provas, mas que eu poderia entrar com outra pessoa, para que lessem a prova para mim e marcassem no cartão de respostas. Mas isso não é o correto. Eu me preparei o ano todo para fazer o teste sozinha. É um direito meu — justifica a estudante.

Eduarda explica que outras três colegas, também deficientes visuais, conseguiram fazer o teste em outros locais de prova do município.

Por telefone, a coordenação do Centro de Seleção e de Promoção de Eventos da Universidade de Brasília (Cespe), órgão responsável pela distribuição e aplicação das provas, evitou falar sobre o assunto. Segundo Everton Oliveira, coordenador do órgão no Estado, a responsabilidade é do Instituto Nacional de Estudos Educacionais Anísio Teixeira (INEP), que realiza o exame no País.
Fonte:

www.clicrbs.com.br


Determinantes Sociais da Saúde e as Pessoas com Deficiências

Abaixo, compartilho com você caro leitor, observação e reflexão do amigo Márcio Aguiar, militante na causa da inclusão, acessibilidade e direitos humanos.

Comentários sobre Determinantes Sociais da Saúde e as Pessoas com Deficiências

Niterói, 21 de outubro de 2011

Prezados amigos de luta!

Estive presente na Conferência Mundial de Determinantes Sociais da Saúde, promovida pela OMS, realizada aqui no Rio, de 19 à 21 de outubro.
Gostaria de trazer algumas informações sobre o que aconteceu e sobre a minha impressão pessoal. Não pretendo aqui apresentar um relatório, mas sim, trazer algumas reflexões para fundamentar algumas futuras discussões.
Um evento grandioso, imenso mesmo, com a presença de diversos Chefes de Estado. Super bem organizado e que aconteceu em um Hotel da Zona Sul do Rio, Sofitel, e no Forte de Copacabana. Muitas discussões boas, mas que me trouxeram a uma reflexão sobre um grande desafio.
Precisamos trabalhar muito as Políticas Setoriais voltadas ás Pessoas com Deficiências. Na Saúde, agora em tela, a visão geral ainda é que a Deficiência está relacionada com a Reabilitação.
Mesmo em uma discussão sobre Determinantes Sociais é extremamente complicado explicar e fazer que os diversos atores percebam os novos paradígmas que cercam a questão da Deficiência.
Por exemplo, para contextualizar esta discussão, é necessário entender que, “já se sabe há muito tempo que as condições sociais influenciam decisivamente a saúde e que, portanto, é preciso implementar ações em todos os setores para promoção do bem-estar. A maior parte da carga das doenças, assim como as desigualdades de saúde, que existem em todos os países, acontece por conta das condições em que as pessoas nascem, vivem, trabalham e envelhecem, o que é chamado de “determinantes sociais da saúde”. Muitos fatores sociais influenciam a saúde das pessoas e os mais importantes são aqueles que geram estratificação social, os determinantes “estruturais”, tais como a distribuição de renda ou o preconceito de gênero ou étnico”, em que eu destaco também a questão do preconceito quanto à Deficiência. “Esses determinantes estabelecem posições socioeconômicas que geram hierarquias de poder, prestígio e de acesso a recursos. Entre os mecanismos que produzem e mantém essa estratificação estão a governança; os sistemas de educação; as estruturas do mercado de trabalho; e a presença ou ausência de políticas de distribuição de renda” ou, por exemplo, no caso das Pessoas com Deficiências, da presença ou ausência de tecnologias assistivas. “Esses mecanismos, que moldam as diferentes posições sociais ocupadas pelos indivíduos, são a causa última das desigualdades de saúde. São essas diferenças que dão forma às condições de saúde do indivíduo através do seu impacto em determinantes intermediários, como as condições de vida e a relação com o ambiente, as circunstâncias psicológicas, os fatores comportamentais e/ou biológicos, assim como o próprio sistema de saúde. As desigualdades de saúde são, portanto, um claro indicador da coerência das políticas de uma sociedade”.
O grande desafio é político. Transversalizar a política e inserir o olhar sobre a Deficiência de forma ampla e integral. Este é o grande desafio de nós, militantes dos Direitos Humanos.
Neste diapasão surge a Acessibilidade. Prevista na Convenção como princípio e como Direito para se conquistar demais Direitos, a Acessibilidade torna-se o eixo fundamental de equidade. Portanto, dizer na Conferência Mundial que é a Acessibilidade, ou a falta dela, um Determinante Social da saúde das Pessoas com Deficiências, fica parecendo quase um discurso Extraterreno. A falta de Acessibilidade gera diferença entre as Pessoas sem Deficiências e as com Deficiências.
Essas considerações políticas estão centradas nos valores prioritários na formulação de políticas. Para as Pessoas com Deficiências, aparecem em diversos princípios da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiências, como o da não discriminação, da dignidade inerente, entre outros. “As desigualdades de saúde podem ser definidas como diferenças evitáveis, injustas e remediáveis nas condições de saúde entre diferentes grupos populacionais”. Essas diferenças não são, de modo algum, naturais, mas sim o resultado de escolhas políticas. Portanto, quaisquer ações destinadas a reduzir as desigualdades de saúde estão baseadas na ideia de equidade, ligada às condições de saúde, e na justiça social como metas políticas. “Será difícil que sociedades que rejeitam a equidade como valor central em seus processos, oportunidades e em sua saúde, sejam capazes de implementar ações destinadas ao combate das desigualdades de saúde – independente da sua capacidade técnica”.
O Conceito de Saúde da OMS se confunde com os princípios da Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. O tal bem-estar físico, mental, psíquico e social, para as Pessoas com Deficiências, só será possível e alcançado quando garantirmos a Acessibilidade como eixo de equidade. Digo mais: isso só será possível se as políticas setoriais forem articuladas e transversalizadas efetivamente no âmbito do Governo.
Enquanto militante da Sociedade Civil também gostaria de dizer que a questão e a responsabilidade da transversalidade acontecer transcendem as estruturas Governamentais. A Sociedade Civil tem papel fundamental neste processo. E talvez nela que mora a maior resistência.
Facilmente vemos a presença das discussões de Gêneros, igualdade racial e LGBT, mas há uma resistência ao viés da Deficiência quando se fala da equidade através da garantia de direitos, já que no senso comum dos presentes na referida Conferência, já somos atendidos por medidas reabilitacionistas, testes e exames preventivos de algumas doenças, medicamentos, bolsas para ostomizados e etc. Medidas importantíssimas por sinal. Enfim, as questões instrumentais são facilmente reconhecidas, porém, o que é intangível acaba ficando em segundo plano. Alguns só entenderam, mais ou menos, quando dei o exemplo de que em vários postos de saúde cadeirantes não entram, o que pode dificultar os exames preventivos de gravidez de mulheres com deficiências.
Reconhecidamente, penso que tanto a SDH, quanto o CONADE, devem fomentar esta discussão no seio do Governo e na Sociedade Civil. Mas não são os únicos. Em cada esfera, em cada âmbito de atuação, todos nós temos as nossas responsabilidades. Muito temos que avançar. Sei que algo está sendo feito neste sentido, mas estamos engatinhando nas discussões da Saúde da Pessoa com Deficiência no sentido amplo da Coisa Pública. O olhar sobre a Deficiência, falando especificamente da Saúde, ainda é muito compartimentalizado e bem estruturado no modelo proposto pelo Complexo Médico-industrial.
Não sei se é por que, quando da minha atuação como Fisioterapeuta, eu trabalhava com Terapias Orientais ou Alternativas, acabo sentindo falta da visão do Homem Integral, onde o meio ambiente também faz parte dos cuidados de Saúde. E como a Deficiência resulta da interação da Pessoa com o ambiente em que vive, penso ser fácil entender a questão aqui colocada.
A palavra de ordem é transversalizar, transversalizar e transversalizar. Precisamos quebrar as caixinhas desta Política Pública Setorizada. Necessitamos uma articulação efetiva. As medidas devem ser estruturadas e estruturantes, integradas e integradoras, a fim de envolvermos todos os atores sociais.
Talvez, no documento final da Conferência não saia, como desejávamos, a Deficiência como um determinante a ser tratado. Mas sinto que estamos só no começo. Conclamo pois, todos nós, militantes de Direitos Humanos, para a reflexão sobre como atuarmos efetivamente nas Políticas Setoriais. Principalmente na da Saúde. Todo mundo gosta muito de discutir Educação e Assistência Social. Reconhecemos essas questões como fundamentais. Vamos olhar com carinho para a Saúde. Afinal, Saúde, como direito fundamental do homem, torna-se um dos Direitos Humanos principais. Para Pessoa com Deficiência especificamente, é a discussão primeira para se chegar à tão propalada Inclusão. É hora de buscar parcerias para a efetivação de uma discussão ampla sobre os Determinantes Sociais da Saúde da Pessoa com Deficiência.

Marcio Aguiar dentre outras funções é Conselheiro Titular do CONADE